Jardim Arado

O projeto Jardín Arado nasce do interesse de Mano Penalva pelas formas de aprendizagem construídas a partir do corpo, do gesto e da experiência coletiva. Desenvolvida a partir de uma caixa de areia de 310 x 200 x 10 cm, a instalação foi concebida para o Centro de Autismo de Porto Escondido como um espaço de convivência sensível entre crianças, adolescentes, professores e familiares. Mais do que uma estrutura recreativa, o trabalho propõe uma espécie de paisagem pedagógica, onde a areia, as pedras, as plantas e os instrumentos produzidos pelo artista durante sua residência na Casa Wabi tornam-se dispositivos de escuta, imaginação e contato.

Embora dialogue com a tradição dos jardins orientais, Jardín Arado desloca essa referência para um território profundamente local. A materialidade natural da costa mexicana, os ritmos do trabalho manual e o caráter colaborativo de sua manutenção afastam o projeto de qualquer ideal contemplativo ou silencioso associado ao jardim zen clássico. Aqui, o desenho não é individual nem meditativo: ele acontece em grupo, no atrito entre corpos, rastros e movimentos compartilhados. A superfície de areia transforma-se, assim, em um campo aberto para experimentação sensorial e construção de vínculos.

Ao incorporar metodologias já praticadas pelos educadores do Centro de Autismo, o projeto reconhece o espaço pedagógico como um território de troca, onde arte e cuidado não se dissociam. Penalva compreende o brincar como uma forma complexa de elaboração do mundo — um exercício capaz de aproximar percepção, coordenação motora, imaginação e presença coletiva. Os sulcos produzidos na areia pelas ferramentas desenvolvidas pelo artista sugerem um desenho que nasce menos da representação e mais da experiência tátil, permitindo às crianças explorar os limites do corpo através de gestos simples, repetitivos e lúdicos.

Além da instalação principal, o projeto prevê duas intervenções complementares: a criação de um muro de palmas, responsável por delimitar o espaço e produzir uma atmosfera mais íntima e protegida, e um jardim olfativo composto por ervas locais. Este último amplia a dimensão sensorial do trabalho ao propor aproximações graduais com o olfato, especialmente importantes para crianças com sensibilidades específicas relacionadas aos estímulos externos.

Destinado a crianças e adolescentes entre 3 e 14 anos, bem como a professores e familiares, Jardín Arado reafirma uma dimensão recorrente na pesquisa de Mano Penalva: a criação de espaços em que matéria, afeto e convivência se entrelaçam. Como em outros trabalhos do artista, o cotidiano aparece não como tema ilustrativo, mas como estrutura viva capaz de reorganizar relações entre corpo, arquitetura e comunidade.