Moiré Bereguedê
O título da exposição sintetiza a relação conciliatória entre o vernacular e o industrial que particulariza a obra de Mano Penalva. Moiré não é só um efeito óptico gerado a partir da sobreposição de linhas demarcando um grid, mas um fenômeno muito presente na arte de tendência construtiva no Brasil, em particular, a partir dos anos 1950. Artistas como Hélio Oiticica e Lygia Pape apontaram a sua estrutura ortogonal simultaneamente ao fato de que a desconstruíram, respectivamente, em séries de obras como “Metaesquemas” (c. 1958) e “Ttéia” (1977–2002). Traçando um paralelo com o presente, Penalva também realiza operação semelhante, por exemplo, com as “Nuvens”, quando o grid se torna um plano tridimensional expansivo e maleável. Já bereguedê assinala o lugar do improviso, da espontaneidade e, significativamente, da coletividade e da festa.
A mostra se pauta sob o regime da confluência desses dois espaços que condensam, por um lado, as investigações geométricas da arte de vanguarda e a sua relação com a transparência e a vibração cromática, e, por outro, a experiência da rua, não só utilizando materiais do cotidiano como ripas, lonas, palha, o náilon das cadeiras de praia ou de bolsas, mas também a intensidade e o barulho da cidade, as culturas locais, a memória afetiva e, especialmente, a gambiarra ou a aproximação entre valor de uso e valor estético de um objeto ordinário por meio do improviso. Interessa ao artista a mixagem de culturas como a proximidade entre o muxarabi e sua arquitetura não impeditiva a um olho que perfura a matéria e a linguagem mágica e acidental das ruas.
Ainda no contexto arquitetônico, Penalva desenvolve tanto o arquétipo de uma praça quanto o de uma casa. A disposição das obras pelo espaço, criando corredores ou cômodos translúcidos com os “Alpendres” e “Cortinas”, assim como intervalos para o ócio por meio das “Camas de gato”, possibilita que o público percorra a exposição como se estivesse experenciando um ato contínuo de desaceleração do tempo e dos modos subjetivos de constituição de afeto.
Felipe Scovino
Manglar, 2026, Série Ventana, Faixa de nylon, ripa de madeira, tinta esmalte e chassi, 480 x 200 x 5 cm