Mano Penalva, Balneário Brasil, 2016, Foto: Rafael Dabul
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Aderimos aos amuletos na porta de entrada da exposição, que apareceu em proteção de um país surrado e áspero, presentes em objetos que o artista produz com escovas de limpar chão. O que também nos levou a pensar quanto a elaboração de comentários sobre mecanismos de trucagem, entendido em cada obra por intermédio de diferentes gingados, sotaques, ritmos ou trapaças. Se a forte presença das cores e tramas qualificam um modo particular de reinvenção do uso de materiais utilizados para embalar, transportar e delimitar espaço, lograr e aproximar procedimentos da arte daqueles vinculados ao tradicional mercado popular, permitiria ressignificar suas estratégias de circulação de objetos.
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Mano Penalva, truk(e), Soma Galeria, foto: Rafael Dabul
 Foto: Rafael Dabul

Foto: Rafael Dabul

Mano Penalva, Truk(e), 2018, foto: Rafael Dabul
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Mano Penalva, Truk(e), Soma Galeria, foto: Rafael Dabul
Mano Penalva, Truk(e), Soma Galeria, Curadoria: Josué Mattos
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truk(ə)

Corre perigo quem resolver dar truques em sistemas projetados para que o medo deixe de ser elevado a moeda de troca entre a sociedade e o Estado, já que preservar a vida no Brasil requer atenção redobrada. Ao longo do processo de montagem da exposição truk(ə), vivemos o luto pelo extermínio de Marielle Franco, coroando o estúpido e obscuro projeto de nação, presenciado com espanto sempre maior. Na ocasião, Mano Penalva questionou as cores, tramas e materiais que constituem seu trabalho. Pareceu-lhe muito festivo, tornando inevitável o recuo de algumas obras realizadas com sacos de ráfia, plásticos, nylon e algodão coloridos. Não foi o que aconteceu, pois, seguimos sustentando desejos de identificar truques em sistemas de dominação, elaborando leituras sobre estratégias responsáveis por promover a corrosão do estado de direito, um ato tão urgente quanto perigoso. Com isso, buscamos, em grande parcela da montagem, promover um jogo que consistiu em aproximar obras da série Tramas – realizada, em grande parte, com reproduções de Espadas de São Jorge e cintos utilizados para sistemas de segurança – de enunciados e imagens que resultam de recortes e aproximações de materiais com os quais o artista trabalha. Aderimos aos amuletos na porta de entrada da exposição, que apareceu em proteção de um país surrado e áspero, presentes em objetos que o artista produz com escovas de limpar chão. O que também nos levou a pensar quanto a elaboração de comentários sobre mecanismos de trucagem, entendido em cada obra por intermédio de diferentes gingados, sotaques, ritmos ou trapaças. Assim, ao lado de uma peça onde se lê "mas calidad", uma outra indicaria "origen de los materiales: Brasil”. Se a forte presença das cores e tramas qualificam um modo particular de reinvenção do uso de materiais utilizados para embalar, transportar e delimitar espaço, lograr e aproximar procedimentos da arte daqueles vinculados ao tradicional mercado popular, permitiria ressignificar suas estratégias de circulação de objetos.

Outro conjunto, da série Samba, reavê o minimalismo com faixas de nylon dobradas e costuradas. A desenvoltura do gênero musical encontra a estruturação do movimento que previa promover a prática de geometrias impessoais. Nas obras de Mano, essas formas deixam de afirmar que "o que você vê é o que você vê." Em vez disso, surge um diálogo improvável entre campos com pouca ou nenhuma contaminação do universo alheio, conjugados nas obras a partir de uma humanização necessária aos processos de percepção. O que vemos, pelo contrário, é resultado de uma série de jogos, que interroga conquistas no campo da arte e sugere mico-oxigenações sobre o modo como percebemos o mundo a partir de condicionantes naturalizados. Por isso, ao lado de Samba, fotografias da série Origem, iniciadas em 2015, tomam a palavra. Trata-se de uma coleção de trinta imagens, realizada no momento em que lonas azuis são utilizadas para cobrir camelôs. Coberturas de espaços móveis do comércio popular, elas preservam campos imantados, como diria Lygia Pape, produzindo ao mesmo tempo um conjunto inusitado de volumetria efêmera, que comenta sobre esse espaço de trabalho, seus métodos inventivos e instabilidades. Ao lado de paredes pintadas de verde, que o artista realizou para acolher o público e instalar outros objetos que tecem comentários agudos sobre o país, essas coberturas relembram lógicas que entendem o ato inaugurado pela Land Art, de empacotar para gerar visibilidade ao objeto ou local.

Sobre o verde bandeira da parede de entrada, o objeto composto contendo uma escova de piaçava e um aplique em formato de palmeira repete a palavra Brasil em truk(ə). Dessa vez, a obra estabelece relação direta com outro objeto no qual o verbo produzir ganha espaço central. Diante da urgente necessidade de produzir o Brasil, Mano não perde a chance de apresentar gracejos e sutilezas do seu trabalho, constituído por remontagens e repetições que parecem esvaziadas de significado em nosso cotidiano. A tessitura desses materiais e os movimentos apressados de Aparelhagem, vídeo que apresenta um jogo de adivinha – daqueles cuja regra é feita de maneira a permitir que, não raro, apenas um dos participantes saia vitorioso –  colaboram grandemente com reflexões sobre deslocamentos de objetos e ações desgastadas, renovados de questionamentos sobre a presença do sensível em desacertos, insucessos e destroços do tempo presente.     

Josué Mattos

Mano Penalva, Untitled, Serie: Origem, 2017
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